Negócio versus “Business”

A palavra negócio tem origem latina formada por nec e otium (sem ócio). “Aportuguesando” um pouco mais, seria a negação do ócio. Otium não era uma palavra ruim. Apenas representava a utilização do tempo livre para alguma atividade não remunerada. Negócio então seria fazer algo em troca de remuneração, assim nec otium = não sem remuneração ou com remuneração. Num contexto atual, ócio não se relaciona com este significado de atividade sem remuneração, mas sim com “folga”, “repouso”, “preguiça”, “falta de trabalho”. No dicionário Michaelis é inclusive citado como antônimo de “ocupação”.

Business, por outro lado, vem do inglês arcaico bisignes que significava cuidado, ocupação, derivado de bisig “cuidadoso, ocupado, diligente”. Mais tarde, ainda escrita como busyness, evolui para significar o “estado de estar ocupado ou engajado”. Posteriormente, já como business, passa a significar a ocupação de alguém em determinado momento. Finalmente, já no século 18, passa também a representar “atividades comerciais”.

As perguntas em português “qual o seu negócio?”  e em inglês “what is your business?” podem ser interpretadas como uma pergunta genérica: “o que você faz com a maior parte do seu tempo?”. 

No entanto pode haver uma diferença na sutileza da origem das palavras empregadas: em português, podemos estar perguntando “como você sai da preguiça?” ou “o que você faz quando para de descansar?”. Já no inglês, mesmo considerando a origem, estaríamos perguntado, “como você se mantém ocupado?”. Note que em ambos casos não importa se a pessoa recebe pagamento ou não pela atividade. Só que em português, é como se o estado natural do indivíduo fosse a folga. Em inglês, o estado natural seria a ocupação.

Seria este raciocínio apenas um devaneio? Ou, talvez, essas duas palavras, uma tradução da outra, representem realmente uma grande diferença cultural entre povos latinos e anglo-saxônicos?

Felizmente, a língua portuguesa é riquíssima e usando um pouquinho de lógica:

negócio = negação do ócio = negação da não ocupação = ocupação

Assim, podemos empregar “ocupação” em vários contextos onde hoje utilizamos “negócio” e, talvez, estejamos com esse pequeno ato realizando uma mudança mental.

Eu, pelo menos, sempre que for possível assim o farei. :)

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