Vale a pena comprar eletrônicos nos Estados Unidos e trazer pro Brasil?

A princípio, produtos eletrônicos nos Estados Unidos custam a metade ou menos do que os importados idênticos nas lojas brasileiras. O principal motivo é o que todos imaginam mesmo: impostos altos incidindo uns sobre os outros em cascata: II (imposto de importação), IPI (imposto de produtos industrializados), PIS (programa de integração social), COFINS (contribuição para financiamento da seguridade social) e, finalmente, ICMS (imposto de circulação de mercadorias e serviços de transporte e comunicação).

Mesmo assim, a resposta para a pergunta do título é mais complexa do que o "SIM" que muitos imaginam.

Exemplo dentro da cota de isenção de $500

Para exemplificar, hoje você pode comprar um disco rígido portátil Seagate de 640GB nos Estados Unidos por $89.99 que equivaleriam numa cotação de R$ 1,69 a apenas R$ 152,08. Em cima do preço anunciado, o viajante terá que pagar o sales tax americano que é um tributo parecido com nosso ICMS.  O sales tax é mais eficiente e simples (portanto mais inteligente) que o ICMS, incidindo apenas na venda para o consumidor final. Uma parte do sales tax é destinada ao estado e outra ao município, por isso espere grandes variações de cidade para cidade. No caso de New York/NY, a alíquota é de 8,875%, adicionando $7.99 ao custo da nossa mercadoria exemplo. Este tributo é diferente do VAT europeu e não haverá devolução para os viajantes na saída dos Estados Unidos.

Se o viajante utilizar cartão de crédito para comprar, o Governo Federal brasileiro aplicará o IOF (imposto de operação financeira) de 2,38% sobre o custo em dólares. Isso aumenta o custo da mercadoria em mais $2.33, levando o total para $100.31. A cotação usada pelos cartões não é a comercial que é hoje de R$ 1,69, sendo normalmente bem mais alta (meu cartão apresenta hoje R$ 1,82). Note que se você comprar dólares aqui no Brasil antes da viagem ou se sacar o dinheiro de sua conta em um caixa no exterior, também pagará IOF e cotação diferenciada. Se você tem o dinheiro para pagar a vista, a vantagem é IOF menor e já saber quanto se gastará em R$, não precisando esperar a fatura do cartão.

Assim, se pararmos por aqui e você trouxer o produto dentro da cota de $500 por viajante, o preço final do produto ficará em torno de R$ 182,56. Comparando com preços da Internet pro mesmo produto em torno de R$ 250, é uma economia considerável e provavelmente um boa compra. No entanto, antes de decidir, deve-se levar em conta outros fatores além do preço:

  • são poucos os fabricantes que oferecem garantia internacional válida no Brasil sem custo adicional (a Seagate é um deles);
  • o produto tem manual e menus em português?
  • o produto segue normas da ABNT, Anatel, e outros padrões brasileiros? (Ex.: teclado com ç, padrão de tomada, frequência de operação, toca DVD região 4, sistema brasileiro de TV digital)
  • importante: o produto funciona com a voltagem/freqüência da rede elétrica da sua cidade?

E se a compra exceder a cota de isenção de $500?

Se o produto puder ser enquadrado na importação simplificada, você poderá pagar imposto a uma alíquota de 50% e legalizar a entrada da bagagem. Na chegada ao Brasil, basta se encaminhar à fila "a declarar", preencher a declaração simplificada descrevendo todos os produtos que está trazendo e pagar os 50% sobre o que exceder $500. O preço do produto subiria (considerando que o viajante declarou o preço de catálogo de $89.99) mais R$ 76,04, levando o custo final para R$ 258,06! Note que o DARF do imposto de importação deve ser pago imediatamente em dinheiro para liberação da bagagem. O pagamento pode ser feito em caixa eletrônico ou nos Correios.

Se o viajante com mais de $500 em compras se arriscar na fila "nada a declarar" poderá (ou não) ter toda a bagagem inspecionada e, além do imposto de importação corre diversos outros riscos como multa e processo no caso de tentativa de ocultação de mercadoria. Consulte os documentos publicados pela RFB para os viajantes (nova legislação de bagagem).

Na situação acima descrita, a melhor compra seria fazer uma boa pesquisa de preços no Brasil e, quem sabe, conseguir até um parcelamento em reais no cartão de crédito. Já para alguns outros produtos específicos, a compra nos Estados Unidos poderia ser tão boa que pagaria a sua viajem com a diferença de preço! A dica que fica é decidir a compra fazendo uma comparação que leve em conta todos os custos que estão escondidos na transação, além dos demais fatores citados.

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